Será mesmo importante a preservação do meio ambiente? Essa pergunta parece ecoar por todos os lados, seja de forma explícita ou implícita, embora as pesquisas e comprovações científicas ao longo do tempo não deixem dúvidas. A maneira como a sociedade tem lidado com o tema não condiz com a profundidade da temática; a mudança ambiental, além de refletir em eventos climáticos extremos, afeta pessoas de diferentes idades e perfis. Jovens já se envolvem na causa e, com habilidade tecnológica, utilizam as redes sociais para promover o ativismo.
No entanto, esta militância não é o suficiente dada a extensão das transformações globais, uma vez que o digital propaga rapidamente a informação, mas não firma a coletividade, além de gerar insegurança devido à quantidade de fake news que habita o terreno das redes sociais. Por outro lado, tal iniciativa desperta a juventude para as consequências da devastação ambiental e para a compreensão de que será difícil escapar de danos irreversíveis se essa geração não começar a agir em prol de um ecossistema sadio.
Daí surge a urgente necessidade da inserção da criança na Educação Ambiental, a fim de evitar que se tornem adultos sem o hábito da preservação; afinal, para preservar é preciso conhecer. Enquanto isso não ocorre, outro problema vai sendo identificado: os impactos na saúde física e mental de crianças pela falta de contato com a natureza — o Transtorno de Déficit de Natureza. Embora não seja um termo médico e não conste no DSM-5 (Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais), nem na CID (Classificação Internacional de Doenças), o conceito criado pelo jornalista Richard Louv descreve a falta de conexão das crianças com áreas verdes e alerta para problemas como atraso no desenvolvimento motor, miopia, obesidade e distúrbios psicológicos.
O brincar é essencial; ao ar livre, ele aguça a curiosidade, aprimora a criatividade e melhora a imunidade, a memória, o sono e a sociabilidade. Segundo Donald Winnicott, pediatra e um dos psicanalistas mais influentes no campo da infância, “o brincar fornece uma organização para a iniciação de relações emocionais e, assim, proporciona o desenvolvimento de contatos sociais”. Para ele, o brincar é fundamental porque é através dele que se manifesta a criatividade.
Atualmente, o excesso de estímulos, o tempo dedicado às telas e as rotinas superlotadas têm tomado o lugar do brincar livre. Estações de estudo e de lazer tornaram-se uma só, o que impede a criança de diferenciar ambientes e desenvolver novas habilidades sensoriais. Estudos avançados comprovam que fatores como o confinamento doméstico e a falta de interação familiar levam a quadros de ansiedade e estresse. Embora o mundo digital permita a conexão visual, ele tem desestimulado o deslocamento físico. O brincar assumiu novos formatos, como os jogos online, cuja consequência tem sido manter as crianças dentro de casa e reduzir a exposição à luz natural.
Vale ressaltar que a luz solar é o principal regulador do ritmo circadiano (relógio biológico), que atua no ciclo do sono, na produção de hormônios e na regulação da vitamina D. Além de questões de saúde propriamente ditas, o contato com a natureza é um pilar do desenvolvimento socioemocional, que diz respeito ao gerenciamento das emoções, tomada de decisões, empatia, autocuidado, conscientização e senso de pertencimento. O uso desmedido das telas em oposição ao déficit de natureza evidencia problemas como sedentarismo, falta de conexão interpessoal, empobrecimento do vocabulário e falta de concentração.
Atividades como correr, pular e sentir diferentes texturas na terra são fundamentais para a coordenação motora. Devemos entender o déficit de natureza como um impacto expressivo no desenvolvimento infantil, mas também estar atentos ao fato de que a escassez de áreas verdes — engolidas pela verticalização urbana — pode afetar pessoas de todas as idades. Em uma campanha como ativista, o ator Matheus Solano evidenciou a seguinte frase: “Sou filho da natureza e não dono dela”. Tal conceito só poderá ser difundido se as crianças forem iniciadas, desde já, no contato com o meio ambiente, desenvolvendo uma conexão emocional e o reconhecimento da importância dos elementos naturais.
Finalmente, reza a Constituição Federal de 1988, em seu artigo 225, que “todos têm direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, bem de uso comum do povo e essencial à sadia qualidade de vida, impondo-se ao poder público e à coletividade o dever de defendê-lo e preservá-lo para as presentes e futuras gerações”.

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