Pot Laisa Cristine
Na última sexta-feira (24/07), aconteceu mais uma roda de conversa promovida pelo Arquivo Histórico Municipal de Guarulhos. Cheguei quando a roda de conversa do Arquiva Rock já estava acontecendo. Por um instante, pensei que tivesse chegado tarde demais. Descobri, poucos minutos depois, que algumas histórias não têm a cronologia dos relógios.
O que mais me tocou e fez brilhar os olhos naquela noite não foi ouvir relatos sobre bandas, shows ou casas de espetáculo. Foi perceber que, por algumas horas, aqueles homens voltaram a ser os meninos que um dia sonharam em viver de música.
Há uma diferença enorme entre lembrar e retornar. Lembrar é olhar para trás. Retornar é permitir que um sentimento atravesse o tempo e volte a existir. E foi exatamente isso que aconteceu ali. Enquanto compartilhavam suas histórias, eles não apenas revisitavam o passado; voltavam a ocupar aquele lugar onde tudo começou. O brilho nos olhos, as gargalhadas espontâneas, a maneira como um completava a lembrança do outro... por alguns instantes, o tempo deixou o calendário de lado e passou a obedecer às memórias.
Provavelmente por isso eu tenha saído de lá pensando menos no rock e mais nas pessoas. As histórias foram muito além dos palcos. Eram histórias de bastidores. De quartos improvisados que viravam estúdios de ensaio. De equipamentos adaptados. De criatividade fazendo as vezes da estrutura que ainda não existia. Eram histórias sobre construir uma cena cultural quando quase nada estava pronto, exceto a vontade de fazer música.
Gostei de ouvir como cada um encontrou seu instrumento. Ou, quem sabe, como foi encontrado por ele. Às vezes havia um guitarrista de sobra e alguém precisava assumir o baixo. Outras vezes, era a bateria que já tinha dono. Entre necessidades, acasos e afinidades, cada músico acabava descobrindo o lugar que ocuparia naquela história. Achei bonito perceber que, muitas vezes, uma trajetória começa não por um grande plano, mas porque alguém simplesmente disse: "Então eu toco esse."
Outro aspecto que me encantou foi o encontro entre gerações. Ali estavam músicos que viveram momentos diferentes da cena do rock guarulhense, mas que pareciam reconhecer uns nos outros, partes de uma mesma história. Não havia a preocupação em dizer quem veio primeiro ou quem foi mais importante. Havia respeito, escuta, reconhecimento. Era como assistir a uma geração abrindo espaço para a outra, compreendendo que nenhuma história se constrói sozinha.
Destaco a importância da mediação da equipe do Arquivo Histórico; a abordagem fez toda a diferença. Conduzir uma roda de conversa é muito mais do que distribuir a palavra. É perceber quando uma lembrança precisa de tempo, quando outra merece ser retomada, quando alguém ainda tem algo importante para dizer. A mediação foi delicada, respeitosa e generosa. Deu liberdade para que as histórias encontrassem seus próprios caminhos, mas também garantiu que todas as vozes fossem acolhidas. Não conduziu apenas uma conversa; criou um espaço seguro para que a memória acontecesse.
Quando a roda terminou, ninguém parecia com vontade de ir embora. Pelo salão do Arquivo Histórico, em meio aos cartazes, flyers, fotografias e tantos outros registros, as conversas continuavam. Cada imagem despertava uma nova lembrança. Cada lembrança encontrava outra pessoa disposta a completá-la. Foi bonito perceber que um arquivo não guarda apenas documentos. Guarda encontros que ainda podem acontecer.
Talvez o momento mais simbólico da noite tenha sido ver nascer um novo sonho. Em meio às conversas surgiu a ideia de um documentário sobre o rock guarulhense: Arquiva Rock. Achei significativo que um encontro dedicado à memória terminasse apontando para o futuro. Como se recordar não fosse um exercício de nostalgia, mas um gesto de continuidade.
Saí dali pensando que preservar a memória não é guardar o passado em uma estante. É criar oportunidades para que as pessoas se reencontrem com aquilo que um dia as fez sonhar. Talvez seja por isso que ninguém tivesse pressa de ir embora. Naquela noite, não foi apenas a história do rock guarulhense que ganhou espaço. Por algumas horas, a juventude de cada um deles também voltou.

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