Há noites em que a gente vai ao cinema para assistir a uma história.
E há noites em que a história parece reconhecer quem está sentado na plateia.
Foi assim no Cine Memória, na noite de 11/08.
Tivemos a oportunidade de assistir à primeira parte da série documental Orquestra de Violeiros Coração da Viola, uma história contada em três partes e que percorre a trajetória de uma orquestra que, há quase cinco décadas, mantém viva a música caipira e a paixão pela viola na cidade.
A história começou em 1979, apadrinhada pela dupla Tonico e Tinoco. Mas, diante da tela, logo percebemos que uma história como essa nunca começa em uma única data. Ela começa muito antes: nos encontros, nas amizades, nas vontades compartilhadas, nas mãos que seguram uma viola e nas pessoas que acreditam que aquilo que amam merece continuar.
Conhecemos um pouco mais de Seo Oliveira, figura central na formação da orquestra, e ouvimos os relatos de quem viveu aqueles primeiros tempos.
Pessoas que não estavam apenas contando uma história: estavam revisitando a própria vida.
E havia algo muito especial naquela sessão.
Nós não estávamos apenas diante de uma tela. Estávamos diante de pessoas que fazem parte daquela história. Membros da Orquestra de Violeiros Coração da Viola estavam ali conosco. E talvez tenha sido justamente essa presença que transformou uma sessão de cinema em algo maior.
A cada depoimento, a cada lembrança, a sala reagia. Vieram risos, comentários, aqueles olhares de quem reconhece uma história antes mesmo que ela termine de ser contada.
Vi lágrimas também e vi muita saudade de quem já partiu, mas continua presente quando alguém pronuncia seu nome, quando uma lembrança retorna ou quando uma música encontra o caminho de volta para casa.
E vi amor.
Amor pela viola caipira, amor pela música, amor pela cultura, amor por uma história que não pertence somente a quem a viveu, mas também à cidade que a acolheu e às gerações que vieram depois.
Porque talvez seja isso que a cultura faz quando permanece viva: ela cria pertencimento.
Naquela noite, a tela mostrava imagens de outros tempos, mas o passado não estava apenas no filme. Ele estava sentado ao nosso lado, nas pessoas que assistiam, reconheciam, lembravam.
Estava nas histórias que provocavam um sorriso e naquelas que faziam os olhos marejar...
E então aconteceu uma das coisas mais bonitas da noite.
A música começou a atravessar a tela. Era irresistível. Quando uma melodia conhecida surgia, alguém acompanhava. Uma voz aqui, outra ali. Um verso escapava. Um sorriso aparecia antes mesmo de a canção terminar.
E, sem que ninguém tivesse combinado, a plateia virou coral.
Foi quando aprendi que talvez existam histórias que não podem ser apenas assistidas.
Precisam ser cantadas.
A Orquestra Coração da Viola é memória, é cultura, é parte da história de Guarulhos. Mas, naquela noite, ela era também presença, a prova de que uma tradição não sobrevive apenas porque alguém a registra.
Ela sobrevive porque alguém a recebe, a reconhece, a pratica, a ama e decide continuar.
Talvez por isso aquela sessão tenha sido tão bonita. Assistimos a um documentário sobre uma orquestra, mas saímos de lá com a sensação de ter assistido a algo muito maior: uma comunidade lembrando de si mesma.
Memória também é feita assim, de sentimentos. Não é guardar o passado em uma gaveta. É encontrar maneiras de fazê-lo continuar vibrando: às vezes, numa fotografia, numa história contada por quem estava lá, nos olhos de alguém que sente falta de quem já se foi...
E, dessa vez, numa viola.
Naquela noite, a viola não estava apenas na tela, estava na sala, nas mãos, nas vozes, nos olhos marejados, nos risos e nas lembranças.
Estava em tudo aquilo que não pode ser explicado, porque algumas coisas a gente simplesmente reconhece quando sente.
E, por alguns instantes, todos nós pertencemos à mesma canção.
A primeira parte terminou, mas a história, felizmente, não.
Saímos dali levando um pouco daquela música conosco e uma vontade bonita de continuar ouvindo.
Ainda temos duas partes dessa história pela frente.
E, se a primeira nos mostrou que a memória pode cantar, ficamos agora à espera das próximas histórias, dos próximos encontros, das surpresas e das emoções que a segunda parte ainda nos reserva.
Porque algumas histórias a gente assiste.
Outras, a gente escuta.
E há aquelas que, de tão vivas, cantam junto com a gente.
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