O que faz um mestre de cultura popular?

Por A Cidade Me Contou - Laisa Cristine em 11/09/2026
O que faz um mestre de cultura popular?

Fui à 285ª Festa de Nossa Senhora do Bonsucesso por um convite. Justamente por isso saí de lá pensando que algumas experiências chegam até nós como quem bate à porta: a gente pode apenas observar, agradecer e ir embora. Ou pode abrir.

No sábado, 29 de agosto de 2026, primeiro dia da festa, fui convidada a conhecer uma manifestação cultural que, para mim, acabou se transformando em muito mais do que uma programação dentro de uma festa de 285 anos. Fui para a concentração do Cortejo Sacro-Profano de Bosco Maciel.

E ali começou a minha primeira surpresa. O cortejo reunia diferentes manifestações da cultura popular. Estava a Folia de Reis Estrela Dalva, entre outros grupos e participantes; havia capoeira, dança, música, poesia, fé. E havia Bosco.

Bosco Maciel é um mestre de cultura popular e isso é inegável, mas enquanto eu o observava, uma pergunta começou a me acompanhar: O que faz uma pessoa ser um mestre de cultura popular? Será a idade? O conhecimento acumulado? Será pela quantidade de vezes que uma manifestação foi realizada? A capacidade de ensinar aquilo que se aprendeu? Ou será, talvez, uma coisa mais difícil de medir, a disposição de continuar fazendo? Não tenho uma resposta única, esse texto não tenta responder de forma definitiva a essa questão, mas traz minhas descobertas sobre esse fazer encantado, e encantador.

A Festa de Nossa Senhora do Bonsucesso chega à sua 285ª edição. São séculos atravessados por pessoas que nasceram, viveram, partiram, voltaram, acreditaram, celebraram. São gerações que passaram por aquelas ruas carregando suas próprias histórias e adicionando mais uma camada à memória daquele lugar. E, no meio de uma festa que carrega quase três séculos, estava um homem que há décadas se dedica a manter viva uma parte dessa memória. Bosco é poeta, cordelista, cantador, folclorista e fundador da Casa dos Cordéis. A Romaria Cultural que leva sua marca foi criada em 2001 e, desde então, ele atua na sua coordenação.

Vinte e cinco anos.

Alguns podem achar que seja pouco diante dos 285 anos de uma festa. Talvez seja muito. Porque a tradição não é apenas aquilo que existe há muito tempo. Tradição também é aquilo que alguém se compromete a não deixar morrer. Acredito que seja aí que comece a se constituir um mestre de cultura popular.

Bosco estava ali, com seus mais de 70 anos, cercado por estandartes que havia produzido, um a um, para aquela celebração. E naquele ano havia escolhido homenagear figuras como Padre Cícero, Frei Damião e Antônio Conselheiro. Não apenas como personagens religiosos, mas como homens que, cada um à sua maneira e dentro de contextos históricos muito diferentes, se tornaram símbolos de fé, resistência, devoção, identidade e pertencimento para parcelas do povo brasileiro.

Era como se Bosco dissesse, através daqueles estandartes, que a cultura popular nunca cabe inteira dentro de uma definição. Ela é religiosa, mas também é social; é memória, mas também é presença; é fé, mas também é resistência. É passado, mas só permanece viva quando encontra alguém disposto a carregá-la no presente.

E então aconteceu uma coisa pequena, ou talvez enorme. O grupo que chegou para participar do cortejo era menor do que o esperado. E eu olhei para aqueles estandartes, pensei no homem e sua esposa que haviam passado dias trabalhando neles. Pensei no cuidado necessário para produzir cada homenagem. E achei injusto, injusto que aqueles estandartes, preparados com tanto cuidado, não fossem carregados. Foi aí que deixei de ser espectadora. Eu e alguns amigos da Secretaria de Cultura nos juntamos ao cortejo. De repente, estávamos ali, segurando estandartes, caminhando, participando.

Eu, que tinha ido para conhecer uma manifestação cultural, passei a fazer parte dela (é indescritível). Aprendi uma das maiores forças da cultura popular: ela não pede apenas que você olhe. Ela convida você a entrar.

Seguimos por alguns quilômetros, saindo da região do Inocoop em direção ao Santuário de Nossa Senhora do Bonsucesso e depois à Capela de São Benedito, como manda a tradição. Pelo caminho, a sensação era de que aquele pequeno grupo carregava uma coisa muito maior do que o seu próprio tamanho.

Durante o trajeto fomos saudados; na chegada, havia gente esperando, pessoas que nos receberam, fotografaram, filmaram, acompanharam. Como se aquele cortejo, mesmo pequeno, fosse reconhecido por alguma coisa que não se explica apenas pelo número de pessoas que dele participavam. Algumas manifestações não precisam ser grandes para ter importância, mas precisam ser cuidadas.

Foi impossível não pensar nisso quando vi uma menina de aproximadamente dez anos recitando versos, fazendo rimas, trazendo na voz aquilo que aprendeu com a Folia de Reis. Uma criança recitando uma tradição que não nasceu com ela e, ainda assim, passando por ela. Foi uma das imagens mais bonitas que levei daquele dia. É aí que a esperança aparece: não como uma palavra bonita ou promessa, mas como uma menina de dez anos que sabe versos. Como alguém que aprende uma cantiga e depois ensina outra pessoa; como um estandarte que alguém confecciona durante dias; como um homem de mais de 70 anos que segue a pé por todo o percurso; como um grupo pequeno que, apesar de seu tamanho, não desiste de caminhar.

Um mestre de cultura popular é alguém que entende que conhecimento guardado é memória, mas conhecimento compartilhado é continuidade. Uma pessoa que não apenas conhece uma tradição, mas cria condições para que ela encontre outras pessoas.

E Bosco faz isso há décadas. Acho que por isso, naquele dia, eu tenha sentido tanta vontade de olhar para ele, de reverenciá-lo, de cuidar dele também. Porque existe uma inversão bonita nessa relação: quem passou a vida cuidando da memória de um povo também precisa, em algum momento, ser cuidado.

E nós cuidamos um pouco naquele dia: carregamos seus estandartes, caminhamos ao lado dele, amparamos e o seguimos. Talvez sem perceber que, naquele momento, também estávamos recebendo alguma coisa. Porque há mestres que ensinam falando, outros ensinam fazendo. Bosco, naquele sábado, me ensinou caminhando.

A 285ª Festa de Nossa Senhora do Bonsucesso continuaria ao longo do fim de semana com missas, peregrinações, cortejos, Folias de Reis, Congos, Moçambiques, Irmandades de São Benedito e Nossa Senhora do Rosário e outras manifestações que fazem daquele território um lugar de encontro entre fé e cultura popular. E, ao final daquele dia, ainda haveria a celebração da Forania Bonsucesso, reunindo diferentes comunidades da região.

Fiquei pensando nisso. Quando uma coisa deixa de ser novidade e passa a ser tradição? Quanto tempo é preciso para que uma experiência deixe de pertencer somente às pessoas que a criaram e passe a pertencer também à memória coletiva? Vinte e cinco anos? Cinquenta? Cem? Ou será que a tradição não se mede apenas em anos?

Talvez uma tradição comece quando alguém decide repetir um gesto porque acredita que ele merece continuar. Talvez ela se fortaleça quando outra pessoa aceita carregá-lo. E se torna memória quando uma criança aprende aquilo que alguém, muitos anos antes, se recusou a deixar desaparecer.

A festa tem 285 anos. Quantas gerações cabem dentro disso? Quantos pés já caminharam por aquelas ruas? Quantas vozes já cantaram? Quantas mãos já seguraram imagens, bandeiras, estandartes? Quantas pessoas já olharam para aquele mesmo lugar e reconheceram ali alguma coisa de sua própria história?

Nós não temos como saber, mas nossos corpos possivelmente sabem. Porque a memória também mora no corpo: mora no jeito de cantar, no modo de caminhar, na mão que segura o estandarte, no verso decorado de uma criança, na voz que repete uma oração, na dança que alguém aprendeu com alguém que aprendeu com outro alguém...

É assim que os povos continuam existindo: não porque o passado fica parado, mas porque alguém o coloca novamente em movimento.

No sábado, eu fui convidada para assistir e me vi carregando um estandarte. Essa foi a maior lição que Bosco Maciel poderia me dar sobre cultura popular: não basta admirar aquilo que queremos preservar. Em algum momento, é preciso colocar a mão, caminhar junto e ajudar a carregar.

Será isso que faz um mestre? Será assim que se faz uma tradição?

Alguém começa.

Outro alguém continua.

Uma criança aprende.

E, muitos anos depois, quando todos nós já tivermos passado, alguém ainda estará caminhando.

Comentários

  • Nenhum comentário. Seja o primeiro a comentar!

Aguarde..