Há alguns dias, fui convidada a fazer uma coisa que adoro: não saber para onde estou indo, ceder o controle e apenas ir. Recebi a orientação de arrumar as bolsas, separar algumas roupas de cama e preparar uma pequena mala. Não havia destino explicado, programação ou detalhes — apenas a promessa de que eu seria levada a algum lugar.
E eu aceitei.
Talvez porque eu goste de surpresas (algo que descobri nos últimos anos) ou possivelmente porque existe em mim uma criança que ainda acredita que algumas das melhores coisas da vida acontecem justamente quando a gente não sabe o que vem depois.
Não muito longe de Guarulhos, chegamos a Santa Isabel. À noite, conheci o lugar e me apaixonei antes mesmo de conseguir enxergá-lo por inteiro. O nome era Sítio dos Sonhos.
Naquela primeira noite, eu ainda não sabia o quanto aquele nome seria preciso. Foi no domingo, quando a luz chegou devagar e começou a revelar cada pedaço da terra, que entendi: eu estava, literalmente, no lugar dos sonhos.
Não porque houvesse alguma coisa extraordinária no sentido que costumamos dar à palavra; não havia qualquer tentativa de impressionar. E isso foi o mais impressionante: o que foi feito de forma natural e espontânea era de tirar o fôlego.
Havia terra, árvores. Havia silêncio. Havia bichos, gente. E havia uma espécie de beleza que a vida moderna quase nos faz esquecer.
Cada canto daquele sítio parecia guardar o desejo de alguém:
Tinha casa na árvore;
Tinha balanços;
Tinha roça de mandioca e milho;
Tinha um pomar espalhado pela propriedade, como se as árvores tivessem escolhido seus próprios lugares e simplesmente decidido ficar, criando uma composição naturalmente perfeita;
Tinha trator... e foi uma festa!
Tinha trilha e chão para andar descalça;
Tinha café da manhã com pão caseiro, quitutes variados, cueca virada quentinha e aquele tipo de mesa em que ninguém parece ter pressa de levantar.
E tinha pessoas. Pessoas especiais, uma família formada pelo amor compartilhado à cultura caipira — em especial, à viola caipira. Seu Nelson e Dona Maria nos receberam de um jeito que fazia parecer que não estávamos chegando a um lugar estranho, mas sim retornando para um lugar já conhecido e amado.
Foi aí que comecei a ter medo de acordar. Porque, se os meus sonhos tivessem forma de lugar, provavelmente teriam alguma coisa daquele sítio: casa na árvore, roça, fruta colhida no pé, animais por perto... Um caminho para percorrer sem saber exatamente onde vai dar, um café demorado e uma mesa cheia de gente querida. Diferentes gerações dividindo o mesmo encantamento; pessoas diferentes sentadas juntas, contando histórias, ouvindo histórias e descobrindo que algumas experiências continuam sendo comuns mesmo quando o tempo muda tudo ao redor.
E eu ali. Descalça pelos meus sonhos.
Talvez seja difícil explicar a emoção de colher um fruto diretamente da terra ou de caminhar por uma trilha acompanhada de pessoas que, pouco antes, eram desconhecidas e que, de repente, constroem com você uma nova memória. Rir sem nenhuma preocupação especial, ouvir histórias, contar as nossas, comer juntos, olhar para uma plantação e pensar no tempo necessário para que aquilo existisse...
Isso me comoveu de uma forma que quase me faltam palavras para descrever. A terra daquele lugar parecia contar histórias muito anteriores à nossa chegada: histórias de trabalho, de família, de gerações... De gente que plantou, colheu, construiu e cuidou. Histórias que provavelmente começaram muito antes daqueles que estavam ali naquele domingo e que, espero, ainda encontrarão outras pessoas para continuar sendo contadas.
Nós éramos apenas um pequeno recorte nesse tempo todo. Um grupo que chegou, viveu algumas horas daquele mundo e depois partiria. Mas, naquele intervalo, tivemos o privilégio de pertencer — e é por isso que agradeço.
Não foi apenas conhecer um sítio bonito; foi poder experimentar, ainda que por um breve instante, uma outra maneira de estar no mundo:
Uma maneira em que o tempo parece ter outra velocidade;
Em que a comida tem história;
Em que a fruta tem estação;
Em que a terra dá alguma coisa de volta quando a gente aprende a esperar;
Em que o café pode durar mais porque ninguém precisa ter tanta pressa;
Em que uma conversa à mesa atravessa idades;
Em que todos podem olhar para a mesma coisa e encontrar nela encantamentos diferentes.
Eu me senti criança naquele dia. Mas também me senti muito adulta. Talvez porque, aos 42 anos, eu tenha conseguido reconhecer o privilégio que existe em encontrar algo que eu nem sabia que estava procurando. Passei 41 anos sem conhecer aquele lugar e, aos 42, conheci.
Que coisa bonita pensar que a vida ainda pode nos apresentar mundos inteiros depois de tantos anos! Ainda pode nos surpreender, ainda pode nos levar pela mão para algum lugar desconhecido e dizer: “Olha, você também sonhava com isso.”
Voltei do Sítio dos Sonhos carregando mais do que lembranças. Carreguei cheiro de terra, gosto de fruta colhida, histórias compartilhadas, risadas... Carreguei a sensação de ter vivido alguma coisa que não caberia apenas em fotografias ou palavras.
E carreguei gratidão. Gratidão a quem abriu a porteira, a quem dividiu a mesa, a quem contou histórias, a quem mostrou os caminhos. A quem permitiu que a gente colhesse da terra um pouco de seus frutos e, sem perceber, também colhesse um pouco de sua história.
Seu Nelson, Dona Maria: talvez vocês não saibam o tamanho do presente que foi nos receber.
Há lugares que a gente visita. Há lugares que a gente conhece. E existem aqueles raros lugares que, de alguma maneira, nos reconhecem. O Sítio dos Sonhos foi assim para mim. Por algumas horas, eu não estava apenas visitando uma propriedade em Santa Isabel — eu estava entrando num sonho.
O mais bonito talvez seja descobrir que sonhos assim não precisam permanecer adormecidos:
Eles podem ter cheiro de café passado;
Podem ter gosto de pão caseiro;
Podem morar numa árvore;
Podem nascer da terra;
Podem caber numa mesa cheia de gente;
Podem andar de trator;
Podem se perder por uma trilha;
Podem rir;
Podem contar histórias;
Podem ser compartilhados;
E podem, como aconteceu comigo, chegar de surpresa, quando a gente simplesmente arruma uma pequena mala sem saber para onde vai.
Aos 42, eu conheci um pedaço do mundo chamado sonho e tive a sorte de, por um domingo inteiro, viver dentro dele.
Obrigada pelo convite, por nos deixar entrar e por dividirem conosco um pedaço tão bonito da história de vocês.
Alguns lugares a gente visita, outros a gente leva para sempre.