Julho foi só o começo!

Por A Cidade Me Contou - Laisa Cristine em 15/08/2026
Julho foi só o começo!

 

Talvez uma das coisas mais bonitas de trabalhar com memória seja descobrir que ela não é estática, se transforma e circula entre nós. Às vezes aparece em fotografias, cartazes, objetos e documentos. Em outras, ganha voz. E há dias em que ela sobe ao palco, acende as luzes, aumenta o volume e nos lembra que aquilo que chamamos de passado ainda está muito vivo.

 

Foi assim no dia 31 de julho, no encerramento do Arquiva Rock, no Arquivo Histórico Municipal.

 

Era o último dia do mês, e provavelmente tenham escolhido a melhor maneira de encerrar uma exposição sobre rock, não terminar em silêncio. O convite dizia: “Venha celebrar o rock guarulhense.”

 

E foi exatamente isso que aconteceu. O pátio foi se enchendo aos poucos. Vieram os estudantes do Projeto Rock na Escola da Escola Estadual Ênio Chiesa, com as bandas Nebulosa e Underlines. Vieram os pais, irmãos, tios, amigos. Vieram os jovens músicos da HouseBand GRU, da School of Rock, acompanhados por suas famílias e por quem torce de perto por cada apresentação.

 

E vieram também outras gerações do rock na cidade. Pessoas que cresceram ouvindo aquelas músicas. Admiradores de bandas que fizeram parte da cena musical da cidade. Gente que já passou dos trinta há algum tempo e que, talvez, tenha vivido o rock guarulhense em uma época que essa história ainda estava sendo escrita nos ensaios, nos encontros, nos bares, nas amizades e na insistência de quem acreditava que também havia espaço para o rock feito aqui.

 

Vieram funcionários da prefeitura, pessoas que chegaram por curiosidade e acabaram ficando. Gente que conhecia os músicos, gente que conhecia as músicas e gente que simplesmente queria ouvir. E, de repente, havia uma coisa muito bonita acontecendo diante de mim: Guarulhos estava se reconhecendo em sua própria música.

 

Existe uma identidade muito particular no rock guarulhense, uma cena construída com resistência. Não necessariamente aquela resistência grandiosa, dessas que aparecem nos livros. Mas a resistência cotidiana de quem continua criando, ensaiando, tocando, insistindo, acreditando, formando bandas, organizando shows e ocupando espaços mesmo quando não é tão simples fazer cultura longe dos grandes circuitos.

 

O Arquiva Rock me fez pensar muito nisso, e naquela noite de lua cheia essa história ganhou corpo.

 

Primeiro, nos estudantes do Ênio Chiesa, havia algo especialmente bonito em vê-los ocupando aquele palco. Porque quando uma menina sobe com sua banda para tocar rock, ela não está apenas apresentando algumas músicas. Está também descobrindo que aquele espaço pode ser dela. Depois, a HouseBand trouxe outra camada dessa história, jovens músicos experimentando a força de tocar juntos, aprendendo a escutar, dividir, sustentar e confiar.

 

E então chegaram Os Silvas. Uma banda ligada à história do rock de Guarulhos desde o final dos anos 1990 e início dos anos 2000. Uma banda que ajudou a construir, com sua música e sua presença, parte da memória dessa cena.

Quando eles entraram no palco, senti que alguma coisa se completava até aquele momento, eu tinha visto a história registrada, mas naquele instante, eu pude ouvi-la. Ouvi as canções autorais da banda. Ouvi músicas que marcaram diferentes gerações, histórias e momentos. E observei o público.

 

Havia quem cantasse porque conhecia aquelas canções há muitos anos. Havia quem as reconhecesse como parte de uma juventude que já ficou para trás. Havia quem estivesse ouvindo pela primeira vez. E havia os mais jovens, recebendo aquelas músicas como quem encontra uma história que ainda pode continuar.

É curioso o que a música faz com o tempo.

 

Uma canção pode devolver uma idade, uma rua, uma amizade, um amor, uma noite. Pode fazer alguém de cinquenta anos se reconhecer, por alguns minutos, no jovem que foi. Pode fazer um adolescente cantar uma música escrita antes mesmo de ele nascer. Pode colocar diferentes gerações dentro do mesmo refrão.

Foi isso que vi naquela noite.

 

Mas, enquanto tudo acontecia no palco, outra história também estava sendo construída nos bastidores. Câmeras registravam. Equipes de audiovisual circulavam. Diferentes grupos se dedicavam a captar imagens, sons e detalhes. Havia gente preocupada com a luz, com o áudio, com o enquadramento, com aquilo que precisava ser guardado.

 

Parte desse material já nasce com uma vocação especial: continuar a contar essa história depois que a música terminar. E achei bonito perceber isso, enquanto nós assistíamos ao presente, havia quem estivesse trabalhando para preservar aquele presente como memória.

É uma espécie de paradoxo bonito: o Arquivo Histórico estava, naquela noite, documentando aquilo que um dia será história. E, no centro de tudo isso, havia uma equipe de apenas cinco funcionários do Arquivo Histórico Municipal.

Cinco.

 

Talvez seja impossível perceber, para quem chega apenas para assistir, tudo o que existe por trás de uma noite como aquela. Organizar uma exposição. Pensar a programação. Articular artistas e parceiros. Receber o público. Acompanhar as equipes. Cuidar dos espaços. Registrar. Fotografar. Filmar. Resolver o que aparece no caminho. Pensar no que ainda precisa acontecer enquanto aquilo que foi planejado já está acontecendo. Cinco pessoas que, naquela experiência, pareciam se multiplicar.

E isso me tocou profundamente.

 

Porque, quando falamos de memória, é fácil pensar apenas nos grandes acervos, nos documentos, nas fotografias, nos objetos que atravessam o tempo.

 

Mas memória também é trabalho, gente, dedicação... É alguém que decide que uma história merece ser contada e preservada, a partir dessa decisão, criam-se as condições para que ela não desapareça.

 

Aquela equipe fez isso de muitas maneiras, fez mais do que organizar uma exposição sobre o rock guarulhense. Criou encontros. Aproximou gerações. Abriu espaço para quem está começando. Reuniu quem já fez parte dessa história. Produziu registros para aquilo que ainda será contado.

 

Talvez seja essa uma das formas mais bonitas de cuidar da memória, não apenas olhar para aquilo que passou, mas criar condições para que o presente também possa ser lembrado.

 

E foi exatamente isso que senti naquela noite, não acompanhei apenas três apresentações. Vi famílias, amigos, estudantes, músicos admiradores que acompanham a cena há décadas. Vi diferentes gerações circulando pelo mesmo espaço, pensei que talvez seja isso que uma cidade faz quando reconhece sua cultura: ela se encontra.

 

Por isso, o Arquiva Rock me pareceu tão bonito. O Arquivo Histórico Municipal não estava apenas guardando aquilo que aconteceu. Estava criando uma oportunidade para que a memória voltasse a encontrar as pessoas.

 

E memória não é só passado... Memória é vínculo e pertencimento. É aquele instante quando alguém olha para uma fotografia e diz: “eu conheço essa história”. Quando uma música começa e alguém sorri antes mesmo de reconhecer conscientemente os primeiros acordes. É quando uma geração percebe que aquilo que viveu também pode significar alguma coisa para quem está chegando.

Talvez seja essa a força de uma cena cultural: ela continua existindo quando encontra novas formas de se dizer. E talvez seja também por isso que eu tenha saído daquela noite tão feliz, pois fui ao encerramento de uma exposição e encontrei continuidade.

 

Não uma história que termina para que outra comece, mas uma história que vai se ramificando. Os estudantes que estão descobrindo seus primeiros palcos. Os jovens que estão aprendendo a fazer música juntos. Os músicos que já carregam décadas de histórias. As famílias que acompanham. Os amigos que incentivam. Os admiradores que permanecem. Os profissionais que registram. E uma pequena equipe que, com trabalho e dedicação, fez caber em um mesmo espaço memória, música, encontro e futuro.

 

Tudo estava ali, passado, presente e futuro dividindo o mesmo espaço.

Quando a última música terminou, a exposição chegou ao fim, mas o rock, não.

 

Ele continuou nas conversas, nos encontros, nas memórias, nas vozes que ainda cantavam algum refrão e, principalmente, nas imagens, sons e histórias que agora também fazem parte do acervo de uma memória que ainda está sendo construída.

 

Talvez seja isso que os bons encontros fazem: terminam, mas não acabam. E talvez seja por isso que eu prefira pensar que o dia 31 não foi um encerramento.

 

Porque julho passou.

A exposição terminou.

Mas Guarulhos continua tendo histórias para contar, bandas para ouvir, jovens para descobrir seus primeiros acordes, profissionais para registrar e memórias para transformar em novas histórias.

Julho foi só o começo...

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