por:Laisa Cristine
Há primeiras vezes que pertencem apenas a quem as vive. Outras, por generosidade da vida, também alcançam quem está por perto. Existe um privilégio silencioso em testemunhar o instante em que alguém encontra a própria voz.
Foi esse sentimento que me acompanhou durante mais uma edição do Cineclube do Arquivo Histórico. Na tela, o curta-documentário Moda de Rock: a moda que não sai de moda. Projeto dos violeiros Ricardo Vignini e Zé Helder, que aproxima dois universos aparentemente distantes: a viola caipira e o rock. Um encontro improvável que revela como a tradição não precisa permanecer imóvel. Ela pode dialogar, reinventar-se, seguir viva e sobretudo seguir adiante por meio dos que vêm depois de nós.
Mas, na noite de 28/07, o que mais me atravessou não foi apenas a história contada na tela. Foi conhecer a história de quem a contou. Letícia Maria aceitou um desafio que, para muitos, pareceria grande demais para uma primeira experiência: produzir um documentário em menos de vinte dias. O tempo era curto. Havia pesquisa, roteiro, gravações, horas de material para assistir, escolhas difíceis na montagem e a delicada tarefa de transformar tudo isso em uma narrativa capaz de emocionar sem perder a precisão.
O resultado impressiona justamente porque não denuncia a pressa, ao contrário revela cuidado, escuta e muitas escolhas, escolhas conscientes que conferem identidade ao material. Cada imagem parece ocupar exatamente o lugar onde deveria estar. Cada silêncio tem intenção. Cada passagem convida o espectador a caminhar entre a memória e o presente, compreendendo que a cultura permanece viva quando encontra novas formas de ser contada.
Durante a conversa após a exibição, um detalhe me tocou profundamente. Letícia contou que, ao longo do processo, a direção de Paulinho Trewasae teve uma preocupação que foi além de definir passos e etapas, ajudá-la a preservar sua própria voz, mesmo que para isso fosse necessário retomar alguns passos. Em vez de impor um olhar, ela foi conduzida para retornar à essência do que queria dizer. Há uma sabedoria imensa nisso. Dirigir, ensinar, administrar, reger, organizar também deve ser a recusa do protagonismo, pois quando chega a hora do outro descobrir a própria autoria cabe ao diretor apresentar caminhos para essa travessia.
E talvez seja justamente por isso que o documentário tenha uma identidade tão própria. Assim como o Moda de Rock constrói uma ponte entre a tradição da viola caipira e a potência do rock, o curta também estabelece um diálogo delicado entre passado, presente e futuro. Ele olha para a memória sem transformá-la em saudade paralisante. Faz dela um ponto de partida.
Ao assistir ao filme e, depois, ouvir Letícia falar sobre seu processo criativo, responder a cada pergunta dos espectadores empolgados, me deu a nítida sensação de testemunhar o nascimento de uma profissional. Não porque uma estreia precise ser perfeita, mas porque algumas primeiras vezes já revelam aquilo que o tempo apenas confirma: dedicação, sensibilidade, rigor e compromisso com o próprio fazer.
Talvez seja por isso que eu goste tanto dos começos... Eles têm um frescor que nenhuma experiência substitui. Gosto de ver pessoas falando sobre aquilo que amam. Gosto do brilho que nasce nos olhos quando alguém percebe que encontrou um caminho. Gosto de acompanhar o instante em que o talento deixa de ser apenas possibilidade e começa, enfim, a ganhar forma.
Naquela noite, saí do Arquivo Histórico com a alegria de quem assistiu a um excelente projeto cinematográfico. Mas, acima de tudo, com a felicidade de ter presenciado uma primeira vez.
Porque algumas estreias apresentam uma obra.
Outras anunciam uma trajetória.
Nenhum comentário. Seja o primeiro a comentar!